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Aprimorando a interpretabilidade e a precisão de modelos de IA em saúde: revisão abrangente sobre desafios e perspectivas futuras

16 Dez, 2024 | 08:03h

Introdução: A Inteligência Artificial (IA) vem se destacando no suporte ao diagnóstico clínico, previsão de desfechos e tomada de decisão terapêutica, frequentemente superando a capacidade humana em tarefas específicas. Entretanto, a falta de interpretabilidade em modelos de IA, especialmente os de aprendizado profundo, levanta preocupações quanto à segurança do paciente, confiabilidade e aplicabilidade clínica. Esta revisão sistemática avalia o estado da arte em aplicações de IA na área da saúde, enfatizando a relação entre interpretabilidade e precisão, bem como desafios de generalização e aplicabilidade prática. O objetivo é oferecer subsídios para o desenvolvimento de soluções de IA mais transparentes e seguras, capazes de orientar profissionais de saúde em tomadas de decisão baseadas em evidências.

Principais Recomendações:

  1. Diagnóstico e Triagem Automatizados: O uso da IA em diagnósticos por imagem, como detecção de tumores e doenças infecciosas, demonstra alta acurácia. Contudo, recomenda-se integrar modelos interpretáveis, como mapas de calor e técnicas baseadas em importância de recursos (LIME, SHAP, Grad-CAM), garantindo que o profissional compreenda as razões do diagnóstico automatizado.
  2. Tomada de Decisão Terapêutica: Os modelos de IA podem auxiliar na prescrição de tratamentos, como terapia antibiótica e radioterapia. Sugere-se incorporar modelos interpretáveis e quantificação de incertezas para reforçar a confiança do clínico, assegurando que o raciocínio do sistema seja transparente e ajustável às necessidades individuais do paciente.
  3. Modelos Híbridos e Equilíbrio Precisão–Interpretabilidade: Devido ao paradoxo entre alta acurácia e interpretabilidade limitada, recomenda-se desenvolver modelos híbridos que aliem técnicas de deep learning a abordagens estatísticas ou de aprendizado de máquina interpretáveis, garantindo clareza na compreensão do raciocínio e adequação a diferentes contextos clínicos.
  4. Generalização e Dados Multimodais: Estimular o uso de dados heterogêneos (como imagens, históricos clínicos, dados genéticos) e estratégias de validação externa aprimorará a capacidade de generalização dos modelos, evitando vieses e garantindo um desempenho consistente em populações diversas.
  5. Projeto Centrado no Usuário e Colaboração Clínica: A participação ativa de profissionais de saúde no desenvolvimento de modelos de IA é fundamental. Adotar abordagens centradas no usuário, incorporando feedback clínico, facilita a construção de sistemas mais intuitivos, interpretáveis e clinicamente relevantes.

Conclusão: Superar a natureza “caixa-preta” de muitos modelos de IA é essencial para garantir sua adoção clínica. A integração de métodos interpretáveis, validação rigorosa, incorporação de incertezas e uso de dados multimodais é recomendada para aumentar a confiabilidade, segurança e impacto dos sistemas de IA na prática médica. Ao seguir essas recomendações, espera-se aprimorar o cuidado ao paciente, fortalecer a tomada de decisão médica baseada em evidências e acelerar a adoção responsável da IA em saúde.

Referência: Ennab M, Mcheick H. Enhancing interpretability and accuracy of AI models in healthcare: a comprehensive review on challenges and future directions. Frontiers in Robotics and AI. 2024;11:Article 1444763. DOI: https://doi.org/10.3389/frobt.2024.1444763

 


Manejo e Recomendações para Crises Hiperglicêmicas em Adultos com Diabetes

15 Dez, 2024 | 10:16h

Introdução: As crises hiperglicêmicas – incluindo a cetoacidose diabética (CAD) e o estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH) – são complicações agudas graves do diabetes tipo 1 e tipo 2, associadas a risco aumentado de morbidade e mortalidade. Nos últimos anos, observou-se um aumento global nas taxas de CAD e EHH, impulsionado por fatores como má adesão terapêutica, infecções, condições socioeconômicas adversas, uso de certos medicamentos (como inibidores de SGLT2) e fatores psicossociais. Este consenso, fruto da colaboração entre ADA, EASD, JBDS, AACE e DTS, atualiza as recomendações sobre epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e prevenção da CAD e do EHH em adultos, fornecendo orientações para melhorar o cuidado clínico e os desfechos dos pacientes.

Recomendações Principais:

  1. Diagnóstico e Classificação:
    • CAD: Diagnóstico baseado em hiperglicemia (>11,1 mmol/l ou 200 mg/dl, ou histórico prévio de diabetes), cetonemia elevada (β-hidroxibutirato ≥3,0 mmol/l) e acidose metabólica (pH <7,3 ou bicarbonato <18 mmol/l).
    • EHH: Definido por hiperglicemia grave (frequentemente >33,3 mmol/l ou 600 mg/dl), hiperosmolalidade (>320 mOsm/kg), desidratação significativa e ausência de cetose importante.
    • CAD pode ser classificada em leve, moderada ou grave conforme alterações ácido-base e estado mental.
    • Atenção a casos de CAD euglicêmica, especialmente em pacientes em uso de inibidores de SGLT2.
  2. Terapia com Fluidos e Eletrólitos:
    • Iniciar reposição com solução cristalóide isotônica para restabelecer o volume intravascular, corrigir a perfusão tecidual e reduzir a hiperglicemia.
    • Após estabilização, ajustar fluidos considerando estado hemodinâmico, sódio sérico e glicemia.
    • Incluir dextrose quando a glicose plasmática cair abaixo de ~13,9 mmol/l (250 mg/dl) para permitir continuidade da insulina e correção completa da acidose cetônica.
    • Monitorar e corrigir potássio para prevenir hipocalemia potencialmente fatal.
  3. Terapia com Insulina:
    • Iniciar insulina intravenosa de ação rápida (taxa fixa ou protocolos ajustáveis) tão logo seja viável, após assegurar níveis adequados de potássio.
    • No CAD leve a moderada, o uso de insulina subcutânea de ação rápida em ambiente adequado é uma opção.
    • Manter insulina até a resolução da CAD (pH ≥7,3, bicarbonato ≥18 mmol/l, β-hidroxibutirato <0,6 mmol/l) ou do EHH (osmolaridade <300 mOsm/kg, melhora do estado mental).
    • Transição cuidadosa da insulina intravenosa para subcutânea, garantindo sobreposição de 1-2 horas para evitar recorrência da hiperglicemia.
  4. Outros Aspectos Terapêuticos:
    • Bicarbonato: Evitar uso rotineiro; considerar apenas se pH <7,0.
    • Fosfato: Corrigir apenas se valores muito baixos (<1,0 mmol/l) e associado a fraqueza muscular significativa.
    • Avaliar e tratar causas precipitantes (infecções, omissão de insulina, medicamentos, estresse fisiológico).
    • Considerar aspectos psicossociais, depressão, distúrbios alimentares e determinantes sociais da saúde, que aumentam o risco de crises recorrentes.

Conclusão: A aplicação sistemática das recomendações, incluindo diagnóstico precoce, manejo intensivo de fluidos, insulina e eletrólitos, correção das causas precipitantes e atenção às condições socioeconômicas e psicológicas, é fundamental para melhorar o prognóstico. Ao padronizar o cuidado, espera-se redução da morbidade, mortalidade e dos custos relacionados às crises hiperglicêmicas, além de melhora na qualidade de vida dos pacientes.

Referência: Umpierrez GE, Davis GM, ElSayed NA, et al. Hyperglycaemic crises in adults with diabetes: a consensus report. Diabetologia. 2024;67:1455–1479. DOI: https://doi.org/10.1007/s00125-024-06183-8

 


Ensaio Randomizado de Não-Inferioridade: Omissão da Cirurgia Axilar Mantém Mesma Sobrevida Livre de Doença Invasiva em 5 Anos no Câncer de Mama Estágio Inicial

13 Dez, 2024 | 12:13h

Contexto: A necessidade de estadiamento axilar cirúrgico (biópsia de linfonodo sentinela) no tratamento conservador da mama em pacientes com câncer de mama invasivo inicial e linfonodos clinicamente negativos (cN0) tem sido questionada. Com a crescente ênfase nas características biológicas do tumor, o papel prognóstico do status linfonodal diminuiu, e intervenções mais conservadoras podem ser consideradas, desde que não comprometam a sobrevida.

Objetivo: Avaliar se a omissão da cirurgia axilar (sem biópsia de linfonodo sentinela) é não-inferior em termos de sobrevida livre de doença invasiva em 5 anos, em comparação à realização da biópsia de linfonodo sentinela, em pacientes com câncer de mama T1 ou T2 (≤5 cm) clinicamente linfonodo-negativo submetidas a cirurgia conservadora.

Métodos: Este ensaio clínico prospectivo, randomizado e de não-inferioridade incluiu 5502 pacientes com câncer de mama invasivo cN0, T1 ou T2, candidatas à cirurgia conservadora da mama. As pacientes foram randomizadas (1:4) para omissão da cirurgia axilar (sem biópsia de linfonodo sentinela) versus biópsia de linfonodo sentinela. A análise per protocolo incluiu 4858 pacientes. Todas receberam radioterapia adjuvante do tipo padrão, sem alvo específico na axila. A sobrevida livre de doença invasiva, definida como tempo até recidiva invasiva local, axilar ou à distância, novo câncer invasivo contralateral, segundo tumor invasivo primário não mamário ou morte por qualquer causa, foi o desfecho primário.

Resultados: Após seguimento mediano de 73,6 meses, a taxa de sobrevida livre de doença invasiva em 5 anos foi 91,9% (IC95%: 89,9–93,5) no grupo sem cirurgia axilar e 91,7% (IC95%: 90,8–92,6) no grupo submetido à biópsia de linfonodo sentinela (HR=0,91; IC95%: 0,73–1,14), confirmando a não-inferioridade. Houve ligeiro aumento da recidiva axilar no grupo sem cirurgia (1,0% vs. 0,3%), mas sem impacto negativo na sobrevida. A incidência de linfedema, restrição de mobilidade e dor no braço ou ombro foi menor no grupo sem cirurgia axilar.

Conclusões: Em pacientes selecionadas com câncer de mama cN0, T1 ou T2, a omissão da cirurgia axilar foi não-inferior à biópsia de linfonodo sentinela em termos de sobrevida livre de doença invasiva em 5 anos, sem comprometer a eficácia oncológica e reduzindo complicações relacionadas à cirurgia axilar.

Implicações para a Prática: A omissão da biópsia de linfonodo sentinela pode ser considerada em pacientes com perfis de baixo risco, especialmente mulheres mais velhas com tumores luminais pequenos, potencialmente reduzindo complicações e melhorando a qualidade de vida sem comprometer o controle da doença. No entanto, a ausência de informação linfonodal pode impactar a tomada de decisão quanto à radioterapia e ao tratamento sistêmico, exigindo ponderação individualizada.

Forças e Limitações do Estudo: Forças incluem grande amostra, desenho prospectivo, randomizado e acompanhamento mediano de 6 anos. As limitações incluem a baixa proporção de tumores maiores (T2) e de subtipos biológicos mais agressivos, além da possibilidade de impacto nas decisões terapêuticas adjuvantes devido à falta de informações do status linfonodal.

Pesquisas Futuras: Estudos adicionais devem investigar a aplicabilidade desta omissão em subgrupos mais amplos, incluindo pacientes mais jovens, tumores maiores ou subtipos biológicos mais agressivos, além de avaliar estratégias adjuvantes que compensariam a ausência do estadiamento axilar cirúrgico.

Referência: Reimer T, Stachs A, Veselinovic K, Kühn T, Heil J, Polata S, Marmé F, et al. Axillary Surgery in Breast Cancer — Primary Results of the INSEMA Trial. New England Journal of Medicine. 2024. DOI: http://doi.org/10.1056/NEJMoa2412063

 


Estudo de coorte retrospectivo: Uso de medicamentos para pressão arterial sob demanda e risco aumentado de lesão renal aguda e outros desfechos adversos em pacientes internados em hospitais do VA

8 Dez, 2024 | 18:36h

Contexto: Pressões arteriais elevadas e assintomáticas são frequentes no ambiente hospitalar e muitas vezes tratadas com medicamentos para pressão arterial sob demanda (tanto de uso recorrente quanto em dose única). Há preocupação de que essa prática possa levar a reduções rápidas e potencialmente perigosas da pressão arterial, particularmente em pacientes mais idosos ou com doenças cardiovasculares, resultando em eventos isquêmicos, como lesão renal aguda (LRA).

Objetivo: Avaliar se o uso de medicações anti-hipertensivas “sob demanda” para tratar elevações assintomáticas da pressão arterial em pacientes internados em hospitais do Sistema de Saúde dos Veteranos (VA) está associado a um risco aumentado de LRA e outros eventos adversos.

Métodos: Estudo de coorte retrospectivo conduzido por emulação de um ensaio clínico alvo, com escore de propensão para pareamento. Foram incluídos veteranos adultos hospitalizados por 3 ou mais dias em enfermarias não-intensivas do VA entre 1º de outubro de 2015 e 30 de setembro de 2020, sem cirurgia durante a internação, que já usavam ao menos um anti-hipertensivo regular nas primeiras 24 horas e apresentaram pelo menos uma pressão arterial sistólica >140 mmHg. Foram comparados pacientes que receberam medicações anti-hipertensivas sob demanda com aqueles que não receberam, analisando LRA, redução rápida da pressão arterial e um desfecho composto (infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral ou óbito).

Resultados: Foram analisados 133.760 veteranos (média de idade de 71,2 anos; 96% homens). Entre eles, 21% receberam medicação sob demanda. O uso sob demanda foi associado a um risco 23% maior de LRA (HR=1,23; IC95% 1,18-1,29). O risco foi mais pronunciado com medicação intravenosa (HR=1,64) do que oral (HR=1,17). Além disso, houve aumento de eventos adversos, incluindo queda rápida da pressão arterial (aumento de 50% no risco em 3 horas) e maior taxa do desfecho composto (RR=1,69).

Conclusões: O uso de medicações anti-hipertensivas sob demanda em pacientes hospitalizados sem indicação clara de redução aguda da pressão arterial foi associado a aumento de LRA, quedas rápidas da pressão arterial e maior risco de infarto, AVC e morte. Esses achados sugerem necessidade de estudos prospectivos para avaliar o real balanço entre riscos e benefícios desta prática.

Implicações para a Prática: Os resultados levantam questionamentos sobre o uso rotineiro de medicações anti-hipertensivas sob demanda para tratar elevações pressóricas assintomáticas. Dado o potencial de dano, os clínicos devem avaliar cautelosamente a indicação dessa abordagem e considerar medidas não-farmacológicas ou observação antes de optar por intervenções farmacológicas.

Forças e Limitações do Estudo: Pontos fortes incluem o grande tamanho amostral, representatividade nacional e ajuste rigoroso para minimizar confundimento. Limitações incluem a natureza retrospectiva e possibilidade de fatores não mensurados. Embora o estudo não possa estabelecer causalidade, os resultados são robustos e sustentados por análises de sensibilidade.

Pesquisas Futuras: Ensaios clínicos prospectivos são necessários para determinar se a eliminação ou moderação do uso de medicamentos sob demanda para hipertensão assintomática reduz eventos isquêmicos. Pesquisas adicionais podem explorar subgrupos, incluindo cirúrgicos e populações não-veteranas.

Referência: Canales MT, Yang S, Westanmo A, et al. As-Needed Blood Pressure Medication and Adverse Outcomes in VA Hospitals. JAMA Internal Medicine. Publicado online 25 de novembro de 2024. DOI: http://doi.org/10.1001/jamainternmed.2024.6213

 


Estudo Clínico Randomizado Controlado: Intervenção Percutânea com Implante Transcateter de Válvula Aórtica (TAVI) guiada por Reserva de Fluxo Fracionada (FFR) versus Tratamento Cirúrgico Convencional (SAVR + CABG) em Estenose Aórtica Grave e Doença Coronariana Complexa

8 Dez, 2024 | 18:25h

Contexto: A estenose aórtica grave frequentemente coexiste com doença arterial coronariana obstrutiva complexa ou multivascular. A estratégia padrão recomendada pelas diretrizes consiste na substituição valvar aórtica cirúrgica (SAVR) combinada ao bypass coronariano (CABG). Entretanto, o implante transcateter de válvula aórtica (TAVI), associado ao uso de intervenção coronariana percutânea (ICP) guiada por reserva de fluxo fracionada (FFR), surge como uma alternativa menos invasiva e potencialmente segura. Este estudo teve como base a hipótese de que o tratamento percutâneo (TAVI + ICP guiada por FFR) não seria inferior ao tratamento cirúrgico convencional (SAVR + CABG) em pacientes com estenose aórtica grave e doença coronariana complexa.

Objetivo: Avaliar a não-inferioridade e, se demonstrada, a superioridade do TAVI + ICP guiada por FFR em comparação ao SAVR + CABG quanto a desfechos clínicos compostos em um ano, em pacientes com estenose aórtica grave e doença coronariana complexa.

Métodos: Este foi um ensaio clínico internacional, multicêntrico, prospectivo, aberto, randomizado (1:1), conduzido em 18 centros terciários na Europa. Participaram pacientes com ≥70 anos e estenose aórtica grave acompanhada de doença coronariana complexa passíveis de tratamento tanto percutâneo quanto cirúrgico, conforme avaliação do Heart Team. Os pacientes foram alocados para TAVI com válvulas autoexpansíveis (Evolut R ou Evolut PRO), associada à ICP guiada por FFR, ou para tratamento cirúrgico convencional SAVR + CABG. O desfecho primário foi um composto de mortalidade por todas as causas, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral incapacitante, revascularização guiada por sintomas, reintervenção valvar e sangramento com risco à vida ou incapacitante após 1 ano. A análise principal seguiu o princípio de intenção de tratar.

Resultados: Foram incluídos 172 pacientes entre 2018 e 2023 (91 no grupo ICP-FFR+TAVI e 81 no grupo SAVR+CABG). O ponto final primário ocorreu em 4% dos pacientes no grupo ICP-FFR+TAVI versus 23% no grupo SAVR+CABG (diferença do risco: –18,5%; IC90%: –27,8 a –9,7%; p<0,001 para não-inferioridade; p<0,001 para superioridade). A mortalidade por todas as causas foi 0% no grupo percutâneo contra 10% no grupo cirúrgico (p=0,0025). Houve também redução significativa de sangramentos com risco à vida no grupo ICP-FFR+TAVI. Esses achados foram sustentados pelas análises por protocolo e as-treated.

Conclusões: Em pacientes com estenose aórtica grave e doença coronariana complexa, a estratégia percutânea (ICP guiada por FFR + TAVI) mostrou-se não inferior e, na verdade, superior ao tratamento cirúrgico padrão (SAVR + CABG) no prazo de um ano, principalmente devido à redução da mortalidade e de sangramentos graves.

Implicações para a Prática: Os resultados deste estudo sugerem que, para pacientes cuidadosamente selecionados, a abordagem percutânea pode ser considerada uma alternativa viável e possivelmente preferível ao tratamento cirúrgico tradicional, especialmente frente ao menor risco de mortalidade e sangramentos graves. No entanto, diante desta ser a primeira evidência do tipo, a prudência é recomendada antes da adoção rotineira desta estratégia.

Pontos Fortes e Limitações do Estudo: Pontos fortes incluem o delineamento randomizado, multicêntrico e prospectivo, além da avaliação padronizada de desfechos. Contudo, o estudo foi interrompido precocemente, resultando em um tamanho amostral menor do que o inicialmente previsto, o que demanda cautela na extrapolação dos dados. Além disso, um único tipo de prótese TAVI foi utilizado, o que limita a generalização. A utilização do FFR no contexto da estenose aórtica requer interpretação cuidadosa.

Pesquisas Futuras: Estudos maiores, com maior tempo de seguimento e envolvendo diferentes próteses e abordagens de imagem, são necessários para confirmar e estender estes achados, bem como melhor definir quais subgrupos de pacientes se beneficiariam mais dessa estratégia percutânea.

Referência: Kedhi E, Hermanides RS, Dambrink J-HE, Singh SK, Ten Berg JM, van Ginkel DJ, et al. TransCatheter aortic valve implantation and fractional flow reserve-guided percutaneous coronary intervention versus conventional surgical aortic valve replacement and coronary bypass grafting for treatment of patients with aortic valve stenosis and complex or multivessel coronary disease (TCW): an international, multicentre, prospective, open-label, non-inferiority, randomised controlled trial. The Lancet 2024; Published Dec 4. DOI: http://doi.org/10.1016/S0140-6736(24)02100-7

 


CDC Recomenda Vacinação Pneumocócica a Partir dos 50 Anos

6 Nov, 2024 | 09:53h

Introdução: A doença pneumocócica é uma infecção grave causada pela bactéria Streptococcus pneumoniae, responsável por condições como pneumonia, meningite e bacteremia. Tradicionalmente, a vacinação contra o pneumococo era recomendada para adultos a partir dos 65 anos. No entanto, novos dados indicam um aumento significativo no risco de infecção em indivíduos a partir dos 50 anos.

Destaques: O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) anunciou a redução da idade recomendada para a vacinação pneumocócica de 65 para 50 anos. Essa mudança visa ampliar a proteção contra doenças pneumocócicas em uma faixa etária mais jovem, onde o risco de infecção começa a aumentar substancialmente. A vacinação antecipada oferece a oportunidade de prevenir casos graves de pneumonia, meningite e infecções sanguíneas, especialmente em preparação para a temporada de infecções respiratórias no inverno. O CDC recomenda que adultos com 50 anos ou mais conversem com seus profissionais de saúde para atualizar seu status vacinal.

Conclusão: A atualização das diretrizes de vacinação pode resultar em uma diminuição significativa na incidência de doenças pneumocócicas entre adultos a partir dos 50 anos. Profissionais de saúde devem incentivar a vacinação nessa faixa etária, reforçando a importância da imunização na prevenção de infecções graves e na melhoria dos resultados em saúde pública.

Fontes:


Estudo de coorte: Associação do Índice de Redondeza Corporal com Mortalidade por Todas as Causas

6 Nov, 2024 | 09:34h

Introdução: A obesidade, especialmente a obesidade visceral, é um fator de risco bem estabelecido associado à mortalidade por todas as causas. As medidas antropométricas convencionais, como o índice de massa corporal (IMC), são inadequadas para avaliar a distribuição de gordura corporal. O Índice de Redondeza Corporal (IRC) surge como um indicador mais abrangente para avaliar a gordura visceral e sua associação potencial com o risco de mortalidade.

Objetivo: Avaliar as tendências temporais do IRC entre adultos americanos não institucionalizados e explorar sua associação com a mortalidade por todas as causas.

Métodos: Estudo de coorte utilizando dados de 32.995 adultos (idade ≥20 anos) do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) de 1999 a 2018. O IRC foi calculado e suas mudanças percentuais bienais foram avaliadas. A mortalidade por todas as causas foi acompanhada até 31 de dezembro de 2019.

Resultados: A idade média dos participantes foi de 46,74 anos, com 50,10% de mulheres. O IRC médio aumentou de 4,80 para 5,62 entre 1999 e 2018, com uma mudança bienal de 0,95% (P < 0,001). Esse aumento foi mais pronunciado em mulheres, idosos e indivíduos identificados como mexicano-americanos. Durante um seguimento mediano de 9,98 anos, ocorreram 3.452 óbitos (10,46% dos participantes). Observou-se uma associação em forma de U entre o IRC e a mortalidade por todas as causas. Comparado ao quintil médio de IRC (4,5 a 5,5), o risco de mortalidade aumentou em 25% (HR=1,25; IC 95%, 1,05-1,47) para indivíduos com IRC < 3,4 e em 49% (HR=1,49; IC 95%, 1,31-1,70) para aqueles com IRC ≥ 6,9, após ajustes completos.

Conclusões: O estudo revelou um aumento progressivo do IRC em adultos americanos ao longo de quase duas décadas e uma associação em forma de U entre o IRC e a mortalidade por todas as causas. O IRC demonstra potencial como uma medida antropométrica associada ao risco de mortalidade.

Implicações para a Prática: Os achados sugerem que o IRC pode ser utilizado como uma ferramenta de triagem não invasiva para estimar o risco de mortalidade em adultos, auxiliando na identificação precoce de indivíduos em risco e orientando intervenções clínicas direcionadas.

Pontos Fortes e Limitações do Estudo: Pontos fortes incluem o uso de uma amostra nacionalmente representativa e um longo período de seguimento. Limitações envolvem a possibilidade de viés devido à diminuição das taxas de resposta do NHANES ao longo dos anos e a não avaliação da mortalidade por causas específicas devido ao tamanho da amostra.

Pesquisa Futura: Estudos futuros devem validar esses achados em outras populações e investigar a associação do IRC com mortalidade específica por doenças, além de explorar mecanismos biológicos subjacentes.

Referência: Zhang X, Ma N, Lin Q, et al. Body Roundness Index and All-Cause Mortality Among US Adults. JAMA Network Open. 2024;7(6). DOI: http://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2024.15051

 


LinksMedicus.com: operações pausadas por tempo indeterminado.

23 Ago, 2023 | 10:02h

Caros assinantes do LinksMedicus,

Lamento informar que o LinksMedicus.com pausará as operações por tempo indeterminado. Após 12 anos e mais de 30.000 artigos selecionados em todas as especialidades, agora me concentrarei em minha prática clínica.

Atenciosamente.

 

Euclides Cavalcanti 

São Paulo, Brasil

euclidesfac@gmail.com

 


Estudo randomizado | Insulina icodec semanal comprova eficácia em pacientes com diabetes tipo 2 sem uso prévio de insulina

3 Jul, 2023 | 11:48h

Resumo: O ensaio clínico randomizado ONWARDS 3 estudou a eficácia da insulina icodec semanal em comparação com a insulina degludec diária para controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2 sem uso prévio de insulina. O ensaio duplo-cego foi conduzido de março de 2021 a junho de 2022 em 92 locais em 11 países, inscrevendo 588 adultos com diabetes tipo 2. Os participantes foram randomizados em dois grupos: 294 recebendo icodec semanal e placebo diário, e 294 recebendo degludec diário e placebo semanal.

O desfecho primário foi a mudança na hemoglobina A1c (HbA1c) da linha de base à semana 26. A insulina icodec mostrou uma mudança não inferior de HbA1c da linha de base (-1,6 pontos percentuais) em comparação com a insulina degludec (-1,4 pontos percentuais) e demonstrou superioridade estatisticamente confirmada. No entanto, o ensaio mostrou uma taxa maior de eventos hipoglicêmicos de nível 2 (clinicamente significativos) ou nível 3 (severos) no grupo da insulina icodec do que no grupo da insulina degludec, apesar das taxas globais baixas em ambos os grupos. Não houve diferença significativa nas mudanças de peso entre os dois grupos.

O estudo concluiu que a insulina icodec semanal demonstrou redução superior de HbA1c em comparação com a degludec diária após 26 semanas de tratamento em pacientes com diabetes tipo 2 insulina-naïve. A conveniência da administração semanal deve ser considerada em relação ao risco absoluto ligeiramente maior de hipoglicemia. As limitações do estudo incluem sua curta duração (26 semanas) e a falta de dados sobre efeitos sustentados, resultados relatados pelos pacientes e monitoramento contínuo da glicose.

Artigo: Once-Weekly Insulin Icodec vs Once-Daily Insulin Degludec in Adults With Insulin-Naive Type 2 Diabetes: The ONWARDS 3 Randomized Clinical Trial – JAMA (link para o resumo – $ para o texto completo)

Ver também: Visual Abstract

Estudo relacionado: Weekly Icodec versus Daily Glargine U100 in Type 2 Diabetes without Previous Insulin – New England Journal of Medicine (link para o resumo – $ para o texto completo)

 


Estudo randomizado de fase 2 | Tratamento com análogo de FGF21 pegozafermina leva a melhora da fibrose na esteato-hepatite não alcoólica

30 Jun, 2023 | 12:19h

Resumo: Em um ensaio clínico randomizado de fase 2b, multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo, a pegozafermina – um análogo do fator de crescimento de fibroblastos 21 (FGF21) – foi examinada quanto a sua eficácia e segurança no tratamento de pacientes com esteato-hepatite não alcoólica (nonalcoholic steatohepatitis – NASH) não cirrótica confirmada por biópsia. Ao todo, 222 pacientes com fibrose moderada ou grave (estágio F2 ou F3) foram designados para receber pegozafermina subcutânea em doses variadas ou um placebo. Os desfechos primários foram melhora da fibrose e resolução de NASH sem piora da fibrose em 24 semanas.

Os resultados mostraram que uma porcentagem maior de pacientes que receberam pegozafermina atenderam aos critérios de melhora da fibrose e resolução da NASH em comparação àqueles que receberam o placebo. As melhorias mais significativas foram observadas no grupo pegozafermina de 44 mg, com 27% apresentando melhora da fibrose e 26% atendendo aos critérios de resolução da NASH, em comparação com 7% e 2% no grupo placebo, respectivamente. Eventos adversos foram principalmente gastrintestinais e incluíram náuseas e diarreia. Esses achados apoiam o avanço da pegozafermina para o desenvolvimento em estudos de fase 3.

Artigo: Randomized, Controlled Trial of the FGF21 Analogue Pegozafermin in NASH – New England Journal of Medicine (link para o resumo – $ para o texto completo)

 

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